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A verdade existe ou é construída?

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Duas “verdades” mostram se digladiar a respeito de onde reside a Verdade. Até poucos séculos atrás, no mundo ocidental, com o domínio político da Igreja, a Verdade existia por si mesma e somente ela, a Igreja, é que detinha seu conhecimento e era capaz de transmiti-la. Como contrabalanço histórico, surgiu o iluminismo, e depois dele, o positivismo, que nos trouxeram até hoje, onde a verdade se dividiu em duas: a científica, existente apenas pelo método científico, e a social, que pode ser construída e remodelada conforme a necessidade.


Esse debate é dos mais importantes que há em termos filosóficos e políticos, já que quem possui o domínio de como a verdade é gerada, possui também as condições para direcionar o conhecimento e as crenças de seus contemporâneos. O problema é que, entre a verdade da ciência e a do construtivismo, há um enorme abismo que deixa margem para que covardes e corajosos, honestos e mentirosos, éticos e delinquentes, conhecedores e ignorantes, sejam todos igualados sob o manto de uma verdade construída com base em frágeis premissas, mas fora do campo do que pode ou não ser comprovado materialmente e replicado sob as mesmas condições, portanto, fora do campo da ciência.


No fundo, essa questão nos leva à se a Justiça e o Bem são relativos, criados por cada qual a seu bel prazer e necessidade, ou se possuem uma natureza própria e existem por si mesmos. Felizmente, a lógica e a dialética nos servem como ferramenta para, no campo dos objetos imateriais, que fogem ao domínio da ciência, aplicarmos um método que também possa ser reproduzido, na busca por um conhecimento consistente. Então, vamos ao desafio!
 

Nada existe de fato, que antes não exista em potência
 

Qualquer coisa que venha a existir o faz porque antes já existia a possibilidade da sua existência. Ou seja, como pareceria óbvio de se dizer, é impossível que exista algo que é impossível existir. A essa “possibilidade de existir”, chamo aqui de “potência”, já que se trata de uma potencialidade. Poderíamos também chamá-la de probabilidade, já que é disso que se trata. Vemos aqui dois tipos de existência distintos, a existência em potência e a existência concretizada. A existência potencial sempre antecedendo, convivendo e sucedendo a existência concretizada.
 

Isso nos leva à única consequência possível, de que qualquer elemento existente ou com possibilidade de vir a existir, sempre existe por si mesmo e possui uma natureza própria. Contudo, essa potência nunca se realiza completamente, pois a existência concreta é sempre limitada, enquanto as potencialidades são sempre infinitas. Portanto, na existência concreta, nunca alguém saberá a completude de determinada potência, podendo, no máximo, aproximar-se cada vez mais de seu limite infinito, tal qual as casas decimais do 99,9999 se aproximam cada vez mais do 100, mas nunca o alcançam.
 

Então, sempre que nos deparamos com algo que existe ou gostaríamos que viesse a existir, a melhor pergunta que podemos nos fazer é o que é essa potência que deu ou queremos que dê origem a uma existência concreta, para a partir da aproximação intelectual do que essa probabilidade é, possamos avaliar concretamente o quanto a existência concreta se afasta ou não da potência.
 

Desse modo, inferimos que a Verdade, a Justiça e o Bem, existem por si mesmos, contudo, ninguém pode detê-los em sua totalidade no mundo da existência concreta onde vivemos.

 

Tudo o que existe concretamente foi construído por alguém
 

A única forma de qualquer probabilidade se concretizar é por meio de uma ação concreta, seja dada pela natureza ou a partir da inteligência humana. Excluindo a natureza dos processos de organização humana da sociedade e das buscas existenciais sui generis da nossa espécie, somos obrigados a concluir que qualquer verdade, justiça ou bem, somente pode se concretizar por nossas mãos.
 

Aí vemos a armadilha do debate horizontal no qual podemos cair. Alguns concluirão: “Não! A verdade existe” e outros dirão “Não! Foram vocês que a fizeram!”. Enquanto, na realidade, as duas frases podem ser (e são) verdadeiras concomitantemente. E não haveria forma de ser diferente. Se algo existe, só pode ter sido construído por alguém, se foi construído por alguém, só pode ser porque existia a possibilidade de que fosse construído.
 

A armadilha está no conceito resguardado em cada palavra
 

Se as coisas existem por si mesmas, mas também são criadas por nós, necessitamos de conceitos muito claros para que cada um de nós conceba o mesmo conjunto de probabilidades sob o termo utilizado que o designa. Quando a essa probabilidade, que pode ser “Justiça”, há entendimentos diametralmente opostos, quando o conceito se tornou vazio, quando a mesma palavra passou a ser utilizada para fatos da existência completamente diferentes, fica praticamente impossível chegar-se a um consenso, já que como em uma conversa entre estrangeiros, não só cada um tem nomes diferentes para a mesma coisa, mas cada um designa coisas diferentes sob o mesmo nome. Essa é a nossa realidade, para além da dificuldade natural da questão, fruto da falta de cultura generalizada e do embate político calculado onde cada grupo busca aprisionar conceitos universais sob sua própria ideologia.
 

O único caminho possível quando se quer chegar à verdade sobre cada assunto, criar consensos e realidades concretas que se aproximem daquelas que existem em potência nas nossas ideias, é a cada momento de decisão importante, realizar-se o exercício conjunto do estabelecimento do significado de cada termo central no debate, retomando para sua própria natureza os conceitos aprisionados por cada ideologia. Na realidade, qualquer verdadeiro debate, só poderia começar depois disso, e assim seriam facilmente resolvidos. Pois, as nossas diferenças não residem em quais probabilidades queremos para nós, mas em como as entendemos e designamos.
 

Quando os conceitos estão claros, é fácil estabelecer o quanto uma ação é justa ou injusta, boa ou má, verdadeira ou mentirosa. Os conceitos já existem por eles mesmos, em potência, devemos apenas escolher quais termos utilizaremos para cada um deles, definindo assim sua forma, conteúdo e natureza. Desse modo, teremos os elementos necessários para comparar a distância existente entre a verdade potencial de cada termo, aquela que visamos atingir, e a que existe concretamente diante de nós.  

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