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O mal existe?

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Acredito que essa seja uma das perguntas mais genuínas e verdadeiras que podemos nos fazer. Na realidade, a pergunta tem origem na observação e constatação empírica da existência do mal no mundo, na sociedade e na nossa vida. Na sequência, em um momento de solidão, tristeza ou desespero é natural que contrastemos essa constatação às crenças que vigoram na civilização e terminam por orientar boa parte das nossas convicções.

 

Como um deus justo, bom, misericordioso, onipresente e onipotente poderia deixar existir o mal? A resposta que não responde, mas apenas alivia a consciência do crente geralmente vem na lógica de “o mal não é uma criação de Deus, mas do homem”. Se aceitássemos essa resposta, também teríamos que aceitar as suas consequências imediatas: Deus não estaria no homem, e portanto, Deus não seria onipresente.

 

Esse dilema está muito bem expresso no gráfico que sintetiza o raciocínio lógico de Epicuro. Deixo-o abaixo, pois o meu objetivo é avançar um passo a mais na reflexão sobre esse paradoxo.

 

Completando essa sequência de argumentos lógicos, talvez a conclusão mais óbvia seria “então Deus não existe”. Contudo, outra conclusão possível seria “logo, o mal não existe”. O cerne do paradoxo é justamente esse: a ideia de um deus onisciente, onipresente e onipotente e a existência do mal são mutuamente excludentes.

 

Porém, o paradoxo vai para além da ideia de Deus, pois pode ser transportado para uma Justiça ou Inteligência Universal, até mesmo para os conceitos de kharma e dharma. Pois, afinal, de nada adianta explicar o mal como um resultado merecido de ações passadas, já que ainda permanecem as perguntas “o mal é a única opção? Somente assim podemos aprender? Qual é o sentido de viver em um mundo de dor e sofrimento? Como uma inteligência universal e bondosa poderia conceber tamanho mal?

 

No fundo, o entendimento a que chegamos é que a existência do mal é injusta por natureza, já que antes mesmo de que tenhamos qualquer tipo de consciência e, portanto, antes mesmo de que possamos fazer qualquer tipo de escolha consciente, somos afetados por ele indistintamente. Portanto, a Justiça, como ideia universal e absoluta não existiria.

 

Resta, ainda, no entanto, outra hipótese. É o mal que não existe. Mas isso quebra a nossa premissa inicial, baseada na nossa constatação empírica. Bem... e não há a possibilidade da nossa constatação estar parcialmente errada ou incompleta?

 

Então, finalmente chegamos à grande pergunta: O mal existe?

 

Temos aqui que fazer a separação entre dois tipos de existência. Uma, a sensível (pode ser sentida) e concreta. Outra, a existência atemporal e absoluta. 

 

Já possuímos a constatação de que existe no sentido concreto e prático. Contudo, para verificarmos se a nossa constatação é correta ou fruto de algum tipo de ilusão ou engano, temos que nos certificar se o mal existe por ele mesmo, de maneira absoluta. Pois, se não existir, significa que aquilo que denominamos mal na nossa constatação empírica é apenas um desvirtuamento de outro elemento que possui existência absoluta. Afinal, nada pode existir de maneira relativa que antes não existisse de maneira absoluta, como uma possibilidade de existência.

 

Para continuarmos com clareza, deixo a minha definição de mal como o sofrimento causado de forma intencional. Ou, em outras palavras, o sofrimento causado com fim em si mesmo.

 

As intenções são sempre relativas. Sempre concernentes a um tempo e espaço. Elas nascem e morrem. Não possuem vida própria para além dos desejos fugazes que as orientam. A única intenção que poderia ser absoluta e atemporal seria a divina ou universal. No entanto, a concepção de Deus ou de inteligência universal exclui a possibilidade de causar qualquer sofrimento de maneira intencional. Fazer qualquer ser sofrer de maneira intencional não seria inteligente nem bom.

 

Se o mal é baseado na intenção, e as intenções nunca são absolutas, o mal absoluto não existe. 

 

Lembre-se, estamos falando da existência absoluta. Daquela que seria, na realidade, do mundo do Ser, mais do que da existência sensível. Podemos, então, conceber que o mal não existe como Ser, não possui natureza própria, essência. Contudo, continuamos a identificar que existe sofrimento sendo causado de maneira intencional no nosso mundo. O que é isso então?

 

Aqui cabe ressaltar uma sutileza que pode passar desapercebida na definição de mal anteriormente proposta. Há uma importante diferença entre o mal causado de forma intencional e o mal causado de forma consciente. O mal causado conscientemente é muito comum, mas expressa uma falta de ética ou de compaixão, e não propriamente o mal, já que o mal está sendo utilizado apenas como meio para atingir objetivos pessoais. Esse é o caso das grandes maldades do mundo. A indústria das armas, do cigarro, da criação de doenças, da manutenção da pobreza e da miséria, das injustiças sociais, dos estupros, das guerras, dos genocídios. Todos eles nunca são fim em si mesmos, mas meios para outros fins.

 

O mal causado realmente de maneira intencional, como fim, parece-me existir quase como exceção, ao contrário do mal consciente, que parece ser a regra de quem domina as estruturas de poder. O mal intencional existe, talvez, como vingança. Sendo assim, tampouco possui motor próprio. Seu fim real não está em causar sofrimento intencionalmente, mas em descontar o sofrimento anteriormente recebido. Talvez pudéssemos dizer que o mal puramente intencional existe nas crianças. Às vezes podemos observá-las sendo puramente malvadas. Contudo, também somos obrigados a creditar essa “malvadeza” mais a uma falta de consciência e compreensão do que as próprias ações representam do que a um desejo lúcido e coerente de praticar o mal.

 

Dessa forma, o mal causado como fim se desvanece, mesmo no nosso mundo concreto. E o que resta é um colossal mal causado conscientemente. Esse mal, contudo, pode ser traduzido como pura imoralidade. Como incapacidade moral de não colocar os próprios interesses acima do bem-estar dos demais. Como um caráter débil e mesquinho que pensa mais em si próprio do que nos seus semelhantes, a tal ponto de ser capaz de infligir sofrimento conscientemente a outras pessoas para atingir ou manter interesses pessoais. Isso não é o mal como ideia absoluta. É simples afastamento do Bem, em função da própria debilidade moral e intelectual. É afastamento da Justiça, da Compaixão e da Inteligência, em função de fraquezas pessoais, e não a partir de um objetivo lucidamente direcionado ao mal.

 

Se as pessoas que fazem o mal conseguissem obter seus interesses pessoais sem causá-lo, certamente o fariam. Contudo, escravas dos seus desejos se acreditam no direito e na necessidade de causar o mal, já que devem a qualquer preço satisfazê-los. Elas são as maiores amaldiçoadas. Cedo ou tarde descobrirão que tais desejos não podem ser extintos dessa forma e que as ideias absolutas do Bem e da Justiça são o norte para uma vida serena e feliz.

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