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Por meio da pura lógica, da razão e da dialética chegamos à compreensão de que há conceitos universais que existem por si mesmos, que são a origem das diferentes realidades concretas que presenciamos diariamente. Contudo, também identificamos que por nossa falta de lucidez, acreditamos existirem conceitos que, na realidade, não existem por si mesmos, mas apenas como afastamento de outros, como é o caso do mal.

 

Isso nos leva à visão de que o mundo concreto que conhecemos é construído de forma binária, a partir da presença ou ausência concreta daquilo que existe potencialmente. Em outras palavras, poderíamos também dizer, da existência ou não daquilo que É.

Tomando o exemplo da computação, ou talvez a computação tenha tomado o seu exemplo do universo, é como se só existisse o 0 e o 1. Que é uma forma de expressar que apenas há a possibilidade da existência (1) do que É e da inexistência (0) do que É. Contudo, é como se o 1 sendo uma potencialidade perfeita e acabada, nunca pudesse existir plenamente no nosso mundo concreto, e tudo o que vemos nele é a infinitesimal busca e aproximação que vai do 0 ao 1.

 

Dizendo de outra maneira, poderíamos sintetizar em uma tríade:
a) Ser: Aquilo que existe por si mesmo como potência
b) Existência: Aquilo que existe (porque antes já existia a possibilidade de existir)
c) Não-Existência: Aquilo que não existe (mesmo existindo a possibilidade de existir)

 

Então há uma realidade anterior aos números, que quando se expressa no nosso mundo é 1 e quando não se expressa é 0. Mas nós, que estamos submersos na própria existência, apenas podemos conceber a realidade anterior como o próprio 1, pois trata-se da sua presença, ainda que ela seja a origem do 0 e do 1. Contudo, também dissemos que essa expressão nunca é completa no mundo concreto, ainda que isso contrarie a nossa percepção básica mais elementar.

 

Para tornar mais claro, utilizemos exemplos de ideias universais que existem ou não no nosso mundo concreto. Falemos, como de costume, da Justiça. Por esta teoria e pelas conclusões anteriores, a Justiça existe por si mesma, como ideia absoluta, em potência. E pode ou não existir no nosso mundo concreto. Quando alguém realiza uma ação justa, ali a Justiça potencial passou a existir de maneira concreta (ou o Ser da Justiça passou a Existir). Quando alguém realiza uma ação injusta, houve apenas uma ausência de Justiça, e não uma presença de injustiça. Como isso é possível?

 

Sob certo ponto de vista, isso poderia nos parecer absurdo. Pois a nossa relação com a justiça e a injustiça se dá sob a mesma perspectiva. No entanto, é disso justamente que se trata, uma questão de ponto de vista, de perspectiva. O ponto em que nós nos encontramos como observadores faz com que as duas pareçam existir de maneira absoluta e indiscutível no nosso mundo, quando na realidade existem concretamente apenas de forma relativa.

 

Quando definimos que uma ação justa ocorreu, é porque a identificamos como justa a partir do nosso ponto de vista, em relação ao referencial maior da Justiça que temos. E se, por exemplo, um conjunto de leis se aproximar muito do nosso conceito de Justiça é compreensível que confundamos a expressão concreta com a sua ideia absoluta. É como se toda a potencialidade guardada no conceito de Justiça tivesse vindo à tona. Contudo, no momento em que encontrarmos um conjunto de leis que se aproxime ainda mais do nosso conceito de Justiça, passaremos a considerar este justo e o anterior injusto.

 

O mesmo poderíamos dizer da Verdade. Uma sentença pode expressar com precisão uma determinada realidade, e assim diremos que ela é completamente verdadeira. Contudo, no momento em que encontrarmos uma sentença ainda mais precisa, diretamos que esta sim que é verdadeira, enquanto a anterior era apenas parcialmente verdadeira... Ou até mentirosa.

 

Dessa forma, da nossa perspectiva, sempre parece que o justo e o injusto existem absolutamente, assim como o verdadeiro e o falso, o bom e o mal, o belo e o feio. Quando na realidade, sob uma perspectiva superior, veríamos que apenas existem absolutamente os conceitos potenciais de Justiça, Verdade, Bem e Beleza, e que no nosso mundo concreto existem apenas expressões que se aproximam mais ou menos desses mesmos conceitos. 

 

Quando há uma ação concreta que está mais distante do conceito de Justiça do que nós estamos, consideramo-la injusta. Quando está mais próxima ou em distância semelhante a que estamos, consideramo-la justa. Da mesma forma com a Beleza, o feio não é o que não possui qualquer beleza, mas o que possui menos beleza do que o nosso “padrão”, e o belo, o que supera o nosso “padrão”. Consideramos uma pessoa verdadeira aquela que é tão verdadeira quanto nós ou mais, e uma pessoa mentirosa aquele que mente mais do que nós. Uma pessoa boa aquela que faz o bem a tal ponto que se aproxima da ideia potencial de Bem que temos, e uma pessoa má aquela que se afasta a tal ponto do Bem que temos como referencial, que termina por descaracterizá-lo, ainda que apenas do nosso ponto de vista.

 

Portanto, os conceitos absolutos são sempre relativos no nosso mundo concreto e se expressam em escalas de maior e menor presença, nunca estando completamente ausentes ou presentes, mas sempre em movimento de transferência da potência para a existência concreta.

 

Cabe-nos, então, a incrível missão de investigarmos quais são os conceitos universais que são impressos na existência concreta e qual é o conjunto de características e relações que constituem a sua existência potencial. Em outras palavras, cabe-nos encontrar, ou ao menos tentar encontrar, a lei que dá forma à Justiça, à Verdade, ao Bem e à Beleza, assim como a cada potência universal que queiramos tornar concreta na nossa existência, fazendo com que possam ser nitidamente reconhecidas como o que são. O desafio está em definir quais elementos as constituem e como estes elementos se relacionam, a tal ponto que onde quer que olhemos, possamos estabelecer com clareza se aquela potência está expressa ou ausente em determinada existência concreta. Ou para ser mais preciso, o quanto a expressão concreta se aproxima ou se afasta da lei que define sua potência.      

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