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A íntima relação entre beleza, ética e estética

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A Beleza existe por si mesma ou cada um tem a sua? Como podemos ter certeza de que um elemento é mais belo do que outro? A arte moderna tratou de nos fazer acreditar que os padrões clássicos de beleza não eram mais que isso, padrões estéreis, e que a Beleza é construída e entendida por cada um de uma forma diferente. 


Ora... Se a Beleza é entendida por cada pessoa de uma forma diferente, isso não nega que ela não exista por si mesma, mas antes reafirma a sua existência própria. Nós apenas podemos ter pensamentos e sentimentos com relação a algo que exista previamente. A discordância entre o que esse mesmo algo significa para cada um de nós mostra o grau de subjetividade que nos diferencia como seres humanos, mas reafirma a objetividade do objeto estudado.


Dizer que a Beleza não existe por si mesma porque cada um tem a sua, é como dizer que um poema não existe, porque cada um tem uma interpretação diferente dele. A questão é que nós só podemos ter interpretações diferentes dele justamente porque ele existe.


Da mesma forma que tenta-se relativar a Beleza, relativizam-se a moral, a honestidade, a verdade, a justiça, e assim por diante. Discurso que, naturalmente, interessa mais a quem não possui tais elementos em si mesmo e pretende afirmar que a sua forma de agir no mundo é uma outra interpretação tão válida da moral, da verdade ou da beleza quanto qualquer outra, ainda que esteja concretamente expressando imoralidade, mentira e feiura.


As consequências sentidas desse tipo de pensamento, que tem predominado na nossa civilização no último século, são violentas. Edifícios sem vida, admiráveis eventualmente apenas pela sua magnitude, mas nunca pela sua beleza. Cidades cinzas e em cinzas. Músicas, filmes e peças de teatro cada vez mais superficiais, que raramente conseguem alcançar e transmitir a profundidade do que se passa no interior do ser humano. 


A arte de um povo reflete os seus valores e com frequência antecipa a sua realidade histórica. Se artistas e intelectuais do nosso país tornam vigente a supremacia da igualdade formal e a relativização de todos os valores, é natural que os costumes cotidianos da população e da política reflitam essa mesma filosofia no padrão das suas ações.


Como já fundamentamos anteriormente, é claro que temos a capacidade de construir qualquer tipo de conceito, conforme as nossas convicções e valores. Isso apenas demonstra que os conceitos já existem anteriormente por si mesmos, e mais do que construí-los, nós os escolhemos. E eis aí a questão fundamental. Ao quê a nossa civilização deve denominar Beleza?


Dizer que algo é belo não é negar o direito de existência daquilo que não o é, mas é ressaltar as características que definem e expressam valores importantes para nós como civilização, como é o conceito de Beleza. Uma infinidade de pensadores dedicaram suas vidas à investigação de conceitos como esse e seria estupidez da nossa parte não aproveitar tantos conhecimentos alcançados, ainda que nós, como povo, definamos quais conceitos e de que formam se aplicam ao que é Beleza para nós.


A Beleza é simbólica


A Beleza, pela sua própria natureza, é simbólica. O que significa que a obra bela inevitavelmente traz consigo algum significado. O significado pode ter maior ou menor grau de racionalidade, mas seja por meio da razão ou da emoção, a obra do artista ou da natureza transmite uma mensagem. Portanto, a definição de Beleza deve contemplar tanto o conteúdo como a forma dessa mensagem.


O desafio reside justamente em que nos encontramos em um campo onde boa parte das mensagens não são racionais e com frequência exigem um determinado refinamento emocional para serem apreendidas. O que significa um pôr-do-sol? O que significa o sorriso de uma criança? O que significa o céu estrelado? Quem irá dizer que não são belos? Não estamos falando de significados racionais, mas de sentimentos que são transmitidos diretamente sem a necessidade da racionalização.


Contudo, os sentimentos variam de pessoa a pessoa... São subjetivos. Como podemos objetivar um conceito único de Beleza se cada um a sente de forma diferente? Voltamos ao mesmo ponto: se cada um a sente diferente, não significa que ela não exista, mas justamente o contrário, é por existir que podemos percebê-la de tantas formas diferentes. Portanto, devemos desfiar o fio que vai das nossas percepções à lei oculta, mas presente em cada local onde encontramos Beleza.


A definição que proponho é que Beleza é a autenticidade expressa esteticamente. Em outras palavras, a Beleza se expressa no nosso mundo material por uma relação direta entre autenticidade e estética que se potencializam mutuamente. Poderíamos expressar essa definição pela fórmula: B = A . E .


Ou seja, se uma das duas, autenticidade ou estética, está completamente ausente, a Beleza se reduz a zero. No entanto, um mínimo de estética torna-se bela ao ser multiplicada por uma grande autenticidade, e, da mesma forma, reconhecemos a Beleza quando encontramos muita estética em um mínimo de expressão autêntica. 


A estética pode até ser considerada uma ciência. Pode ser pesada, estudada, medida. Como o foi em séculos passados. Mas a Autenticidade constitui um grande desafio, pois diz respeito à expressão concreta, no mundo material, de uma verdade interior. Reconhecê-la exige, portanto, o autoconhecimento de nós mesmos, para como que por reflexo e semelhança possamos identificar o que é e o que não é autêntico naquilo que observamos.


Parece-me ser, por esse motivo, que a maioria das pessoas tende a achar belas as obras com as quais se identificam. São obras que transmitem verdades interiores e olhares de mundo semelhantes aos de quem os aprecia, e portanto, tornam-se mais facilmente apreensíveis ao apreciador.


A íntima relação entre ética e estética


Por meio da ética e da estética podemos entender melhor uma à outra. A estética refere-se à proporção e harmonia de elementos materiais. A ética, à proporção e harmonia da conduta humana. Quando tornamos a estética totalmente relativa, como se ela em si mesma não existisse, corremos o sério risco de também tornar totalmente relativa a ética. Eis a síntese da cultura moderna e contemporânea.


O que nos parece belo na conduta humana? Uma mãe que arrisca a própria vida para salvar o seu filho. Um amigo que se sacrifica por outro. Um desconhecido que devolve um objeto de valor a outro desconhecido. O aluno que admira o professor. O casal que se mantém unido durante décadas. Em outras palavras, coragem, generosidade, honestidade, respeito, amor, fidelidade. Quando pensamos em conduta humana estética, estamos falando de ética.


Mas... E o inverso? Não seria também verdadeiro? Por meio da estética material expressamos a nossa ética pessoal? Talvez sim. Não significa que quem não seja capaz de expressar a estética materialmente seja antiético. Significa, sim, que a estética é a forma material que temos para expressar ética. Ou seja, onde há estética, simbolicamente também está presente a ética. O que não garante, obviamente, que ela predomine de fato no criador de determinada obra estética, mas antes, propicia ao apreciador da obra a possibilidade de conexão com um elemento ético por meio de sua contemplação.


Em outras palavras, é como se pudéssemos ver, ou nos conectar, por meio das obras estéticas à beleza do amor, da generosidade, da justiça, da honestidade, da fidelidade, da paciência, da humildade, e de tantas virtudes que compõem a ética. Novamente, cabe ressaltar, isso não significa que as obras que retratam dor, sofrimento, injustiça e traição não possam ser belas, mas sim que o olhar sobre tais elementos transcende a sua própria densidade antiestética e os sublima, dando-lhes uma nova perspectiva mais profunda, autêntica e estética.


Ética é a estética da alma. Estética é a ética da matéria. Ética é essência, estética é forma. Relativizar e denegrir um, relativiza e denigre o outro. A modernidade confundiu a busca pela igualdade de direitos e oportunidades, com a igualdade entre o ético e o antiético, assim como também buscou igualar o estético e antiestético. Pela defesa da diversidade passou-se a igualar a mais refinada obra estética com a mais grosseira expressão "artística", assim como continuamente discursos políticos ou intelectuais buscam igualar ou relativizar a coragem, a honestidade e o amor, à covardia, à desonestidade e ao ódio. 


As consequências para a nossa sociedade são evidentes. Vivemos um empobrecimento cultural, educacional, político, artístico e moral gigantesco. Contudo, para a grande maioria, as causas não são evidentes, mas uma delas, com certeza, é esquecer-nos da importância que a Beleza tem nas nossas vidas.

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