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O duelo hipócrita: Igualdade x Mérito

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O duelo hipócrita: Igualdade x Mérito

August 17, 2017

 

 

Superar a dicotomia entre mérito e igualdade é matéria urgente para termos alguma chance de evoluirmos política, cultural e socialmente. Não se trata de uma dicotomia real ou um paradoxo filosófico de difícil resolução. Aproxima-se mais de uma confusão conceitual que tem servido a interesses escusos para todos os lados da esfera política continuarem a defender suas ideologias, sem ninguém atentar-se ao que a necessidade real evidencia.


Por um lado, temos um séquito de defensores do mérito puro. O que política e economicamente acaba significando livre mercado, Estado enxuto ou ausência total de Estado. Por outro, temos os defensores da igualdade e da democracia, os quais são seguidos de perto por uma nobre série de defesas políticas, como a dos direitos humanos, das minorias e a igualdade de gênero.


Bem, vamos evidenciar e esclarecer a confusão, para demonstrar que não existe democracia real e possível sem a presença do mérito, ainda que nem de longe ele signifique livre mercado simples e puro.


Primeiramente, a defesa da igualdade pela igualdade é um contracenso em si mesmo. É defender uma coisa que não existe e nunca existiu na nossa esfera de realidade. Em termos concretos, que é a esfera de atuação da política e das leis (que não julgam e avaliam a essência ou alma das pessoas), quem poderá dizer que existe um só ser humano igual a outro? Então que absurdo é esse da defesa da igualdade pura e simplista entre todos?


Os defensores da igualdade também costumam defender a diversidade. Ora... O contracenso não é evidente? Só pode existir diversidade quando há diferenciação real das maneiras de pensar e agir no mundo, e não quando há uma tentativa de homogeinização do pensamento. Os exemplos são inesgotáveis dos defensores da democracia que apenas a defendem enquanto as ideias expressas por outros estão dentro da sua esfera de valores.


Moralmente a igualdade é um perigo e é incrível como ela seja tão forte quanto rasamente defendida, enquanto a conduta moral da política faz o fundo do poço ficar cada vez mais distante e ninguém relaciona uma coisa com a outra. Se a nossa cultura defende a igualdade de forma superficial, dela por ela mesma, também estamos defendendo que o covarde é igual ao corajoso, o honesto igual ao desonesto, o humilde igual ao vaidoso, o sincero igual ao mentiroso e o seguidor das leis igual ao criminoso.


Em termos de democracia moderna, é justamente isso o que acontece. A esmola democrática do voto iguala a todos. O mesmo poder de decisão que possui um doutor com 40 anos de estudos, também possui um jovem de 16 anos cujos maiores interesses são os naturais da sua idade. O voto do criminoso em liberdade vale tanto quanto o da mãe de família que trabalha 12 horas por dia para sustentar os seus filhos. O cidadão que estuda, fiscaliza os seus governantes, propõe leis e está atento à conjuntura política tem o mesmo peso daquele que apenas pensa no próprio umbigo. Vale muito mais a pena ser malandro e desonesto em uma cultura como essa. Civicamente o mérito não tem valor algum. Essa é a melhor forma de perpetuar uma maioria ignorante e imoral, sem valores éticos e intelectuais, que continuará a escolher governantes à sua própria semelhança.


Temos que ressaltar e admitir que o caminho que leva da mentira para a sinceridade, da irresponsabilidade para a responsabilidade, da malandragem para a honestidade, do descompromisso com os seus semelhantes para o trabalho pela causa pública, é um caminho pautado pelo mérito. Por mais que tentemos dar voltas à realidade, ela se evidencia. O mérito é pessoal, instransferível e nos diferencia como indivíduos de uma sociedade. Algo que filosoficamente pareceria evidente, mas politicamente se tornou um tabu que tem servido mais à defesa de interesses partidários e corporativistas do que a interesses reais das grandes maiorias.


Contudo, o debate político da atualidade alcançou uma superficialidade profunda - se é que isso pode existir. “Se o mérito existe, então: livre mercado. A natureza se encarregará de dizer quem é o melhor e o pior. O mais capacitado vencerá”. E, novamente, dados transbordantes da realidade são deixados de lado para justificar, mais uma vez, os próprios interesses.


Que mérito pode haver em uma sociedade completamente desigual? Como alguém sem família, sem estudo básico, sem acesso a qualquer tipo de financiamento, pode concorrer com alguém que desde cedo aprendeu três idiomas, fez cursinho, teve toda a comida que precisou na mesa e nunca teve que trabalhar para sustentar a casa? São perguntas tão óbvias que sua omissão reverbera nos discursos neoliberais. Como um cidadão comum irá competir contra um capital concentrado nas mãos de poucos durante décadas ou séculos? Como eu vou escolher meu governante, enquanto há bancos que faturam mais de R$ 20 bilhões ao ano financiando campanhas eleitorais de norte a sul, seja por caixa 1, 2 ou 3?


O mérito não pode ser constatado onde não há igualdade de oportunidades. Opa! Apareceu a igualdade novamente. A defesa do mérito puro e livre em uma sociedade tão desigual é uma falácia que só atende aos interesses de quem detém o poder.


Valorizar o mérito a partir da igualdade de oportunidades


Então, a solução se evidencia. Devemos valorizar o mérito a partir de uma igualdade de oportunidades. Nesse ponto, novas dificuldades surgem, mas pelo menos são dificuldades reais, que valem a pena serem resolvidas e que se superadas poderão nos levar a um novo patamar de civilização, de política e de sociedade.


Igualdade total de oportunidades nunca haverá. Na medida em que um cidadão cumpra melhor com seu papel do que outro, seus filhos naturalmente terão alguma vantagem sobre os de outro pai que foi mais preguiçoso. 


Por outro lado, quem irá medir o mérito individual de cada um? É um contracenso que a pessoa mais qualificada seja medida por uma maioria que por questões matemáticas sempre será menos qualificada que ela. Quem terá esse poder? O Estado? A Escola? A universidade? O mercado? Quem poderá dizer quem é pior ou melhor cidadão?


São questões difíceis, mas possíveis de serem resolvidas quando há real intenção de resolvê-las, para além dos interesses próprios, corporativistas ou ideológicos.


Precisamos elevar o nível da igualdade e do mérito que defendemos. Não uma igualdade absoluta, mas uma igualdade de oportunidades, direitos e deveres. Não um mérito mercadológico, mas um mérito cívico e democrático. Há formas simples e eficientes para tornar essa igualdade e esse mérito reais e serão abordadas nos próximos artigos.

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