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60 mil motivos para reviver o estudo dos clássicos

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Qualquer pessoa que observe a realidade em que a sociedade brasileira e o planeta como um todo se encontram, certamente se perguntará “como foi possível chegarmos até aqui?”. Para exemplificar, atenhamo-nos apenas ao Brasil.

 

São mais de 60 mil homicídios por ano. São mais de 60 mil pessoas que mataram voluntariamente outras. Multiplique-se por um número indefinido, e ainda teremos em maior quantidade todo o hall de crimes gravíssimos que acontecem a cada minuto no país, como roubos, sequestros e estupros.

 

Para diminuir a esperança de qualquer bom otimista, a nossa única chance de salvação a longo prazo vai de mal a pior. A situação da educação pública é catastrófica em praticamente a totalidade do território brasileiro, da básica ao ensino superior. Jovens entram nas universidades sem saber ler e escrever adequadamente, professores de colégio são agredidos em sala de aula, as escolas são ponto fixo para o tráfico de drogas e em todos os rankings internacionais de educação o Brasil amarga os últimos lugares (atrás de países com centenas de bilhões a menos no PIB).

 

Ainda poder-se-ia falar das filas nos hospitais, do desmatamento, dos horrores da política e mais uma lista interminável de fatos surreais para uma sociedade que se considera civilizada. Tendo todas as condições materiais para vivermos em paz e harmonia, conseguimos a façanha de viver na escassez, abaixo da dignidade humana.

 

Não vejo outra pergunta a ser feita, a não ser: “como foi que chegamos até aqui?”, mas parece que a cultura moderna e contemporânea prevalecem impondo questões de maior relevância, como a legalização das drogas, o aborto, o casamento de homossexuais e o campeonato brasileiro. Em tal cortina de fumaça, a evidência some da visão.

 

Durante séculos a fio a humanidade intermitente e insistentemente acreditou que, pese a sua ignorância, há um mistério anterior a ela, que possuímos uma origem e compartilhamos de uma essência. Isso nos fazia acreditar que a nossa vida possuía um sentido e parte desse sentido estava em desvendar os maravilhosos véus da realidade. Isso, porque obviamente, a realidade existia.

 

Daí se escreveram os mais belos tratados da filosofia, da ética e da moral, no compartilhamento histórico e sucessivo da busca pela melhor forma de convivência e estilo de vida. Pessoas das mais competentes que já existiram dedicaram suas vidas a encontrar essas respostas, que são as respostas aos problemas que vivenciamos hoje no nosso país, mas as conclusões a que eles chegaram parecem irrelevantes a estudiosos, formadores de opinião, líderes e estudantes.

 

Em algum momento do caminho, alguém nos fez crer que a realidade não existe em si mesma, já que cada um tem a possibilidade de criar a sua. Nos fizeram acreditar que a diferença entre a verdade e a mentira é uma questão de ponto de vista. Convenceram-nos que o belo é igual ao feio, que o justo é igual ao injusto, que o corajoso é igual ao covarde e que a ética é apenas uma construção subjetiva.

 

O edifício de contradições não se sustenta em si mesmo, mas é sob essa cultura que somos governados, com um cínico espanto ao final, quando nos deparamos com os resultados das nossas escolhas.

 

A realidade se impõe.

 

Há maior indicativo do que 60 mil homicídios ao ano para se desconfiar que relativizar totalmente a ética e a verdade não é um bom negócio? Se a verdade não existe e cada um pode criar a sua, da mesma forma um assassino pode criar o seu estilo de vida e a sua coerência própria dedicadas a matar sempre que considerar conveniente. Se não há entendimento intelectual dos valores morais, nem tampouco treinamento de autodomínio, como se pode esperar que a população haja de forma diferente?

 

Os defensores da igualdade absoluta (inclusive de opiniões) e da relativização da verdade agem com soberba hipocrisia, desconectados da própria realidade na qual vivem, inclusive no próprio instante em que discursam tais teses. “Cada um pode criar a sua verdade” e para isso você deve aceitar como verdade o que ele está dizendo. A ética é relativa, construída por cada sujeito, mas eu não desejo ser morto, roubado, assassinado ou estuprado por ninguém.

 

O discurso e o pensamento se distanciaram a tal ponto da experiência concreta de cada um que hoje não só é possível, como rotineiro, encontrar pessoas defendendo o oposto do que estão fazendo naquele exato instante, com a maior naturalidade do mundo. Nem sequer é necessário apelar para os políticos para constatar esse fato. Basta observar o seu entorno.

 

Soterrada em sua hipocrisia, a cultura moderna não se dá conta que a condição básica para a busca da verdade é a sinceridade. Não há como encontrar a verdade sobre a melhor forma de mudar o país enquanto cada indivíduo continua abstrair-se da realidade a que pertence, das experiências que vivencia, dos sentimentos que realmente possui e de suas necessidades humanas mais profundas.

 

Enfim, escrevo tanto porque me faltam palavras para dizer o evidente. Encontramo-nos em absoluta miséria moral e intelectual porque nos distanciamos da nossa tradição. Esquecemos daqueles que nos deram todas as bases intelectuais, morais, metodológicas e referências para que pudéssemos construir todo o universo de conhecimento que possuímos hoje.

 

Centenas de pensadores receberam de seus antepassados um conhecimento magnífico e assumiram para si a missão de aprofundá-lo, aprimorá-lo e levá-lo adiante. Contudo, o que a eles parecia óbvio, às nossas escolas e universidades nem lhes ocorre: para saber quem somos e como chegamos até aqui, temos que estudar os que vieram antes de nós, sem sequer cogitar a hipótese de abrir mão do estudo daqueles realizaram as fundações do pensamento filosófico e científico.

 

Esses seres humanos notáveis deixaram um rastro de conhecimento que durante séculos direcionou e influenciou os rumos da nossa civilização. Eles e suas obras são os clássicos. Há centenas deles, os quais, talvez, não possamos conhecer em sua totalidade. Contudo, não poderíamos abrir mão de que cada cidadão ativo na sociedade conhecesse os pais fundadores do nosso pensamento ocidental.

 

Na mais sincera busca sobre a realidade do amor, da amizade, da justiça, da beleza, da coragem, da virtude, da alma, da política, das leis, dos deuses, do ser humano, Platão deu forma a um método de busca do conhecimento, baseado na experiência do indivíduo e na realidade do mundo que o envolve, no encalço de leis universais constatáveis.

 

Era a ciência nascendo, após ser fecundada por Sócrates e que ganharia força e estrutura na geração seguinte, com Aristóteles. Graças a essa tríade de mestres e discípulos temos praticamente tudo o que temos na nossa vida real, concreta e cotidiana hoje. Edifícios, celulares, foguetes, democracia, constituições, medicina, universidades. Nada disso seria possível sem o método filosófico de busca pela verdade desenvolvido por Sócrates, Platão e Aristóteles.

 

De tal herança todos nós compartilhamos, mas há outra, ainda mais sublime, encontrada na reverência à Virtude, à Sabedoria e aos deuses, sempre usando como instrumento a Razão, a Lógica e a Dialética, para entendê-las e fundamentá-las.

 

Espanta que 2.500 anos depois as mesmas opiniões dos sofistas continuem em voga e dominem o imaginário coletivo: "a verdade não existe, é construída por cada um". Enquanto usufruímos ingratamente de todo o conforto e os benefícios que o conhecimento já deixou à humanidade.

 

A cultura moderna conseguiu romper as bases que nos possibilitaram chegar até aqui. É como se filhos adolescentes, bem instruídos, agora renegassem seus pais acreditando-se já adultos. Sem acreditar que a sabedoria existe, que a realidade tem uma estrutura própria que é evidente por si mesma e que pode ser compreendida por meio da Razão, não há meio possível de criar uma sociedade justa, boa e bela.

 

Por isso o estudo dos clássicos é urgente, necessário e imprescindível para a nossa juventude. A começar por Platão.

 

* Piatã Müller é presidente do Instituto Sócrates.

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