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A busca pela felicidade e pela melhor forma de viver em sociedade tem doutrinas organizadas há pelo menos 2.500 anos (para sermos excessivamente conservadores). Chineses, japoneses, egípcios, hindus, nórdicos, astecas, maias e incas deixaram registros acerca do que acreditavam sobre como deve ser a conduta do ser humano em vida e em sociedade.

 

Esse pensamento antigo, com enorme frequência, confunde-se com o místico, simbólico e religioso, apresentando o entendimento da realidade em uma amálgama com o que os deuses esperam de nós e com o que deve ser a conduta interna de cada indivíduo. Daí se depreenderam grande quantidade de filosofias e religiões que perpetuam práticas destinadas à evolução espiritual do indivíduo ou pelo menos ao seu autoconhecimento e autodomínio.

 

Contudo, observando a atualidade de uma enormidade de “práticas espiritualizantes” dos mais diversos matizes é lícito constatarmos a frequência com que quanto maior é o “desenvolvimento espiritual” do praticante, maior tende a ser a sua desconexão com a realidade que o cerca. É comum encontrarmos casos genuínos e cada vez mais frequentes de agressões por amor, exclusões por compaixão, fugas por coragem, mentiras por honra à verdade, aparições por humildade e roubos por generosidade.

 

Não falamos aqui do farsante que intencionalmente age de forma diferente à que discursa para obter uma vantagem pessoal, mas daquele que se acredita virtuoso e sábio, com capacidade, inclusive, de controlar em maior medida suas próprias emoções e angústias, de sobressair-se intelectualmente ou em especificidades morais, mas que no conjunto da sua conduta não consegue perceber como suas próprias ações se afastam do domínio espiritual que acredita ter.

 

É com o advento da filosofia grega que temos a busca racional e objetiva pelo entendimento da realidade. A mística religiosa e mitológica, sem excluir-se totalmente, deram passo à investigação racional de uma verdade objetiva, capaz de ser material ou cognitivamente verificável. Como desdobramento, os dilemas morais passaram a ser respondidos a partir de perguntas do que nos mais convém na realidade cotidiana e concreta, do que com relação ao que algum deus espera de nós.

 

A racionalização da verdade evoluiu até a modernidade, onde alguns solavancos históricos parecem haver ocorrido. O fato é que na cultura contemporânea a busca objetiva da realidade perdeu-se de forma generalizada, deixando em seu lugar um disforme subjetivismo.

 

Em resumo, o mais comum é acreditar-se atualmente que “cada um possui a sua verdade”, por mais resplandecente que uma verdade objetiva possa demonstrar-se. Sobre esse assunto já falamos o suficiente neste artigo. O ponto em questão, neste momento, é a respeito daqueles que por meio de uma religião, práticas esotéricas ou estilo de vida contra a cultura dominante acreditam-se superiores por possuírem mais vida interior do que a média da sociedade em que vivem.

 

A maioria das práticas religiosas, místicas, esotéricas e “contra culturais” têm por objetivo um bem maior, último, que sempre é colocado em um patamar futuro e, portanto, não comprovável no momento presente, mas que a despeito disso, provoca transformações positivas sensíveis na conduta e na vida interior do indivíduo que as pratica. O praticante pode, efetivamente, tornar-se mais sereno, compreensivo, compassivo, abnegado e feliz por meio de tais práticas, ainda que sua capacidade de percepção da realidade veja-se cada vez mais distorcida. Como consequência dessa visão, tais pessoas são incapazes de alcançar objetivos concretos na vida, realizar projetos e gerenciar elementos cotidianos como casa, família e trabalho, mas perante os infortúnios que criam para si mesmas, seguem com uma postura abnegada e plena de aceitação. Essa é a linha que (em grande generalização) podemos atribuir ao oriente.

 

Por outro lado, temos materialistas, pragmáticos e positivistas capazes de avaliar a realidade circundante perfeitamente, sempre em busca de dela tirar algum proveito. Tais pessoas são capazes de efetuar cálculos políticos, técnicos, conjunturais com precisão, mas vivem angustiadas, aflitas, ansiosas e eternamente escravas de metas e desejos que nunca são plenamente saciados. Ou seja, sua capacidade de análise da realidade nunca é suficiente para outorgar-lhes uma vida serena, alegre e feliz. Essa é a visão que, também em grande generalização, atribuiríamos ao ocidente.

 

Na visão deturpada oriental temos uma verdade interior que prescinde da realidade exterior e concreta. Enquanto não visão ocidental deturpada temos uma realidade exterior e concreta que prescinde da vida interior.

 

Resta a pergunta, então: como é possível ao evoluído espiritualmente ser incapaz de gerenciar os elementos mais básicos da sua vida? E como é possível ao detentor da verdade concreta do mundo ser incapaz de dominar a si mesmo?

 

A única resposta possível é que o “espiritualmente evoluído” não é tão evoluído quanto se pensa, nem o “realista” possui a verdadeira capacidade de apreender a realidade. Tais faculdades humanas são absolutamente complementares. Somente podemos apreender a realidade concreta porque somos um sujeito que possui uma visão, pensamento e sentimento das coisas, ao mesmo tempo em que esse sujeito somente pode existir porque está submerso na realidade em que existe.

 

O ideal do Bem buscado pelas práticas místico-religiosas e o ideal do entendimento da Realidade buscado pela ciência são indissociáveis. A realidade do mundo e a do sujeito são exatamente a mesma. Um Bem que somente transforma o indivíduo, mas não é capaz de transformar a realidade que circunda a sua própria vida não é realmente um Bem, mas uma caricatura de bondade que poderá servir-lhe durante muitos anos, contudo, cedo ou tarde, ver-se-á subjugada pela supremacia da realidade.

 

Por outro lado, entender a Realidade sem fazer-se capaz de conhecer e dominar a si mesmo não é entender a Realidade, mas sim apreender um espectro extremamente limitado dela, que ao não considerá-la em seu todo, termina por desfigurá-la. Tal qual alguém buscando definir o que é um elefante tendo apenas visto a sua tromba. A análise do que é a tromba será perfeita, mas isso em nada o aproximará, e eventualmente, até mesmo o afastará da realidade integral do que é o elefante.

 

Conclui-se, então, que Bem e Verdade são arquétipos inseparáveis e quando, paradoxalmente, vistos por separado, complementares. Portanto, qualquer visão que pretenda-se sábia, boa ou verdadeira, necessitará forçosamente unir bem e realidade em si mesma. Um sábio incapaz de corretamente analisar e moldar a sua realidade não é um sábio, tal qual tampouco o é um grande líder capaz de tudo conquistar menos a própria felicidade.

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